Mestra Sirley

Sirley Amaro é daquelas carnavalescas da gema. Se sentar com ela em sua casa, pra um café com bolo recém preparado, lá virão álbuns e mais álbuns de fotografias da grande foliona que é. Suas histórias preencherão todo o tempo da visita e ainda faltará o que dizer. Dona Sirley é Mestre Griô com muito gosto e faz jus à preservação da tradição oral de sua cultura.

Foto: Sarah Brito

Em Pelotas, na Estação Primeira do Areal.

GT: Dona Sirley, a senhora fazia bonecas, né? A gente podia começar com a senhora nos contando um pouco sobre o receio que aqui existia sobre se fazer bonecas negras… Se pintavam bonecas e se tinha esse receio de falar na questão do negro… Não sei se tu recordas isso, mas por que o receio de resgatar essa história?

Dona Sirley: Não, não. Eu falei da falta de informação que a gente tinha quando surgiu a biblioteca Griô. Foi essa parte que eu falei, essa parte aí, né?

GT: Sim, mas tu usaste a palavra receio…

Dona Sirley: É, uma coisa que me ajudou a incentivar… Tudo que apareceu na cidade sobre o negro eu gostei de participar. Mas a gente não tinha muita informação, a gente não tinha também acontecimentos, palestras sobre a história do negro e, quando um casal veio para organizar essa biblioteca, fui procurada pela mulher porque eu fazia a roupa de bonecas para ela vender e eu comecei a tomar gosto e descobrir que boneca negra era uma coisa que não existia e achei muito interessante. Quando eles foram embora aqui de Pelotas, inclusive, ela levou duas bonecas de modelo que ela usava como manequim. E ela tinha até o modelinho das roupas, e, quando ela foi embora, eu disse pra ela, eu não queria entregar aquelas bonecas para poder ficar de lembrança, e ela até não tava querendo que eu ficasse com as bonecas, mas ela acabou deixando, e eu tenho uma naquele painel que eu carrego… É muito interessante, a minha mãe fazia bonecas negras. Na minha infância eu brinquei com bonecas negras. Só que tem essa coisa do receio… Até hoje a boneca negra trás um estigma. Como até ainda hoje as pessoas usam o boneco de pano para fazer oferendas, por exemplo, faz o boneco e dá o nome daquela pessoa que tu queres fazer o bem ou o mal, e isso faz com que pessoas até hoje tenham medo de bonecas, ainda mais de pano. Lembro de histórias de pessoas que não gostavam que os filhos ganhassem bonecas negras pois achavam que as pessoas faziam bonecas e já colocavam alguma coisa. Isso tudo eu já vi no decorrer da minha vida. Nos dias de hoje, por exemplo, quando eu iniciei a exercer a minha Ação Griô aqui no Instituto de Menores, eu tentei fazer uma oficina, em uma das viagens que eu ganhei do projeto, eu aprendi a fazer umas bonecas com uma professora em Porto Alegre, e as bonecas não tinham feições, aquelas negras da África que não tinham voz, que não deixavam elas falar, e eu trouxe uma boneca para mostrar a eles e tentei fazer uma oficina, mas eles começaram a achar que era vudu, feitiçaria e falavam muito naquilo. E eu, como estava começando as ações e precisava ter a simpatia deles, achei que não ia ser uma boa, eu podia insistir, mas achei que não ia ser uma boa. Aquilo poderia se espalhar na escola, e eu ainda não era bem conhecida, eu estava iniciando nas ações de cultura negra. Bom, mas, voltando à história das bonecas, eu nesse meio tempo resolvi iniciar a fazer bonecas, a tentar fazer bonecas de pano, pois teve toda uma trajetória. Eu me lembro que nesse meio tempo o Eduardo, que é meu filho e que mora comigo e hoje é evangélico, ele já estava envolvido com rap e começou a sair da cidade para eventos. O Eduardo nunca estudou, ele nunca teve uma profissão definida e agora no decorrer da vida é que eu vejo que ele é um artista. Ele teve o dom de trabalhar em várias profissões, nunca teve uma profissão definida, mas tudo que ele inventou fazer… Ele trabalhou de pedreiro, inventou coisas para fazer… Logo que aumentou a rede telefônica, que tinha aqueles fios coloridos, ele inventava florzinhas e vendia. Ele vendeu sanduíche na praia e aí, depois, ele começou a aprender a fazer brinco e se interessou em artesanato. E, em uma das viagens, ele começou a se interessar pela parte negra, viu muita coisa de bambus, de sementes, então ele, de repente, desenvolveu o dom de artesão. Sempre gostou muito de trabalhar com coisas naturais, bambu, semente e, de repente, ele foi em um evento por aí e viu que tinha um pessoal fazendo bonecas negras e me disse: “Mãe, vamos fazer bonecas negras”. E aí ele me deu as dicas, e aí eu comecei a pegar o gosto de fazer bonecas.

GT: E vocês, quando começaram a fazer essas bonecas negras, vocês fizeram algum tipo de raciocínio? Por que não existia? Que seria indispensável… Vocês tinham esse tipo de pensamento, Dona Sirley?

Dona Sirley: Sim, justamente. Eu sempre tive uma coisa em mim. Nos dias de hoje eu me sinto assim – não com vaidade – uma divulgadora e uma incentivadora da cultura negra. Eu sempre achava falta de coisas do negro. A gente não tinha televisão, era mais o cinema, e, devido a certas restrições e ao racismo que a gente sofreu em Pelotas até uma certa época, partindo daquelas bonecas negras e da viagem do Eduardo, que me veio com essa informação, aí foi toda uma caminhada. Eu não tenho datas, mas ele começou a se especializar nesses artesanatos mais tipo afro, e as pessoas gostavam, e aí aconteceu de eu ir visitar o outro, que mora na Bahia, e aí descobri que lá na Bahia eles vendiam as bonecas. Bonecas que são feitas para a região lá, tanto que eu tenho bonecas naquele meu painel feitas de celulose, que elas são assim, gordinhas, bundudinhas, perninha grossa, beiçudinhas, têm um jeito de negras. E eu trouxe uma caixa, mas depois faltou. Eu conheci Salvador em 1997, e nessa época o Eduardo já estava interessado que eu fizesse as bonecas, que ele levava e vendia nos lugares onde ele ia. Eu trouxe uma caixa dessas bonecas e mandei buscar mais. Eu não sei que época foi no Brasil que, te lembra uma época em que faltou matéria-prima do plástico? Eu não sei que governo foi aquele? Acho que foi a Estrela que fechou…

GT: Foi o Collor?

Dona Sirley: Não, tem um negócio de que o plástico acabou…

GT: Sim, sim. Quebrou um monte de indústrias de plástico…

Dona Sirley: É muito interessante essa pergunta…

GT: José Sarney ou Collor, uma coisa assim…

Dona Sirley: Aí eu mandei buscar uma caixa a mais e a fábrica tinha quebrado lá em Salvador. Nesse meio tempo eu fiz amizade com umas amigas que vieram passar o carnaval aqui em Pelotas e viram que eu gostava muito da negritude. Uma delas disse para mim que quando ela chegou no Rio ela tinha visto uma loja lá com bonecas negras. Aqui em Pelotas, até hoje, eu estava olhando… Pois tem uma loja de costura que vende cabeças de bonecas para fazer, e eu estava olhando que nunca tem de negra nessa loja e eu não sei se é porque elas não pedem ou a fábrica não faz. Aí uma delas disse: “Gaúcha, eu vou te mandar uma caixa com três dúzias de bonecas!”. E aí ela mandou. Quando chegou aqui, elas eram bem diferentes das de Salvador. Elas eram como as Suzi pintadas de negro com estrutura física de estadunidense. Os olhos, eles pintaram de negro, mas, assim, eles ficaram olhos verdes, azuis, e elas são assim acinturadinhas, perninhas magrinhas. Chegou, e eu me lembro… Mesmo não tendo a data, mas aconteceu antes da eleição do Lula, e eu me lembro pelo seguinte, essas bonecas chegaram, e eu trabalhava em um ateliê de alta costura, que alugava roupas de festa… Mas eu não sabia bem que tipo de roupas eu ia fazer. Fiz um tipo de baiana, eu não tinha informações e fui fazendo o tipo de roupa que dava. E aí a Rosane me ajudou. Nós tínhamos muita coisa colorida. A gente fez umas saias rodes, e eu nunca tinha trabalhado com aquela pistola de cola. Então, a gente fazia um turbante, colocava uns brinquinhos, e o Eduardo foi para uma viagem e vendeu todas aquelas bonecas. Um dia ele chegou para mim e falou que teria um seminário de cultura antirracismo lá no hotel, que é ali na barragem, um hotel da rede Manta, que fica ali de onde a gente chega de Porto Alegre, que é o hotel Touring Park Hotel, e ele tinha sido convidado para esse seminário antirracismo e teria um espaço pra ele vender. Ele me disse: “Mãe, vamos fazer bonecas?”. Aí eu fiz bastante. Vendemos todas porque a boneca negra era uma coisa escassa. As pessoas ainda reclamavam porque elas tinham olhos verdes, azuis… Mas eu recebi elas assim. Eu tentei pintar, mas não deu certo. O narizinho delas era pequeno, arrebitado… Eu ainda tenho algumas.

GT: Tu sempre buscaste trazer a questão da negritude nos teu bonecos?

Dona Sirley: É, na época da Barby, eu lembrei agora, eu ainda não estava envolvida com bonecas negras. Falando também do Eduardo, que sempre teve este dom de vender, aí ele estava falando: “Mãe, estou tão sem dinheiro, vamos fazer umas roupas de Barby que eu vou tentar vender na avenida?”. Ele sempre foi bom vendedor. Hoje ele está em uma empresa de segurança, destas que vende de porta em porta, e ele tem o dom de vender. Olha, chovia muito e nós passamos três dias dentro de casa cortando, ele me ajudou a cortar tudo, foi e vendeu. Isso antes das bonecas negras. Quer dizer que, quando surgiram as bonecas negras, mais gosto eu tinha.

GT: Dona Sirley, a gente precisa falar do carnaval… Porque a gente falou de pessoas que vieram de outro estado para fazer uma biblioteca do negro aqui, que, mesmo sendo um lugar de projeção do negro, tendo uma história muito forte aqui… E nós chegamos a mencionar isso, tu fizeste um comentário no carro na vinda, da cozinha do Museu da Baronesa, que mandaram eliminar tudo… Tu disseste que o pessoal não queria mencionar a escravidão. Como é que tu enxergas isso aqui em Pelotas? Esta tentativa?

Dona Sirley: Isso eu vou gostar muito de falar, mas como eu ainda estava lá atrás, pois eu ainda vou falar do meu pai, eu não sei se eu retorno lá atrás e falo do meu pai e do carnaval ou…

GT: Eu gostaria que a senhora fizesse uma linha de raciocínio, mas que a senhora abordasse esse…

Dona Sirley: Eu estava falando da costura, mas vou transferir pro meu pai e carnaval. Costura eu até já falei. Meu pai me passou um grande incentivo do carnaval, porque meu pai tinha uma coisa muito interessante, quando ele chegava, ele não batia na porta, ele batucava. Gostava muito de chegar na porta batucando, e eu achava aquilo muito interessante. Minha mãe abria a porta e ele entrava sambando. Às vezes eu sambava com ele. Aí eu sempre conto que naquele tempo os blocos eram muito pequenos e eu me lembro assim que nos primeiros anos de vida, uma das primeiras coisas que marcou o carnaval, é que ele puxava os blocos e cordões, mas não era só ele em Pelotas. Eram poucas pessoas que faziam fantasias grandes, então ele comprava um tecido preto e eu ajudava minha mãe a fazer como se fosse um godê, que é um pano redondo que fica assim como um poncho. Então, ele tinha uma fantasia de morcego… Na rua onde eu nasci e me criei, os carnavais começavam bem próximo. Eu não sei se vocês já gravaram… É ali perto da Catedral, numa daquelas ruas. Ali é um foco carnavalesco da antiga, e eu ficava em volta da Quinze/Andradas… Então eles se fantasiavam e os blocos em geral se concentravam ali naquelas imediações. Tinha pessoas que faziam dominós enormes… As pessoas não combinavam nada, daí vinha um bloco e aquela pessoa vinha na frente até o centro, animando. E eu tinha muito medo daquela fantasia, do meu pai, porque era um morcego. A minha mãe fazia uma touca e botava, assim, uma coisinha vermelha para fazer que era a boca, e ele gostava muito de sambar. Minha mãe também gostava muito de carnaval, então nós íamos em um clube chamado Depois da Chuva. Naquele tempo existiam blocos de carnaval e não existiam escolas de samba, existiam os cordões carnavalescos e blocos carnavalescos.

GT: E isso basicamente na rua? Não tinha passarela do samba?

Dona Sirley: É, era bem diferente de hoje.

GT: Depois a senhora nos aponta onde era…

Dona Sirley: Nós tivemos três clubes fortes negros que eu ainda vi. Só que tiveram outros antes. Os nomes eram muito pitorescos. O clube mesmo da minha infância era o Depois da Chuva, onde tinha um bloco que era o da Girafa da Cerquinha, que era da mesma zona, então era ligado ao Depois da Chuva. O primeiro bloco que eu saí na vida foi o da Girafa na Cerquinha, era bloco de criança.

GT: Era só de crianças negras?

Dona Sirley: Olha, quando o carnaval surgiu, eu acho que sempre houve algum branco no carnaval, mas o carnaval também levou um estigma que era do negro em Pelotas. O carnaval era negro.

GT: O que a senhora chama de estigma, Dona Sirley?

Dona Sirley: Assim, é que as pessoas iam para o carnaval, olhar o carnaval… Toda a população, mas tinham brancos que não queriam sair, achavam que o carnaval era do negro, entende? Eu conto ainda hoje, esta escola de samba que eu pertenço, a Estação Primeira, quando ela surgiu, surgiu muito, assim, que era escola de brancos, pois ela foi fundada por brancos. A grande população negra não admitia. Achavam que o carnaval era coisa de propriedade do negro, assim, pela dança, pelo batuque. E cedo eu gostei, eu sou uma pessoa que não gosta muito de baile, eu gosto de sambar, adoro sambar na rua perto de uma bateria de uma escola de samba. Para mim tem uma coisa muito interessante, se eu estiver com dor, doença, tristeza, aquilo parece que me dá uma esperança de vida…

GT: E como eram as baterias?

Dona Sirley: As baterias… Bloco tocava só marcha. Eu tenho que me sentar um dia com o Giba Giba, porque ele se lembra da Girafa da Cerquinha, que tinha uma marcha muito bonita e o refrão dizia: “Girafa, girafa, girafa/essa Girafa da Cerquinha está maluca/ainda não é hora do batente/ela fica impertinente/acordando toda a gente”. E aí vem uma letra que o Giba Giba sabe… Lá em Brasília a gente andou meio que cantando, e eu tenho de me sentar com ele para resgatar… ”Eu me levanto antes das 5h/já tô correndo para tomar banho e café/e ainda encontro o pessoal chegando e cantando/Girafa, girafa, girafa/e só termina quando o sol raiar…”. É muito bonita essa marcha. Aí, depois eu me lembro da segunda vez… Eu já era maior e saí em um cordão. A Girafa era bloco, só que os clubes, quando faziam blocos, eles chamavam Cordões Carnavalescos, porque naquele tempo não tinha estas “empurranças”, mas os cordões saíam com cordas nas laterais, e acho que é por isso que se chamavam assim. Eu me lembro que eu saí em um carro no Depois da Chuva. Na infância eu segui saindo na Girafa, mas depois já jovem…

GT: Eu preciso saber como eram as baterias, tinha Sopapo?

Dona Sirley: As baterias… Aí eu vou entrar nas escolas de samba. Isso que eu estou contando para ti não tinha ainda escolas de samba.

GT: Sim, mas tinha bateria?

Dona Sirley: Já tinha bateria sim. Mas, por exemplo, eu nasci em 1936 e, quando eu tinha quatorze ou quinze anos, que idade eu tinha? É, em 1950, a Escola de Samba General Osório, que depois terminou e veio a Ramiro Barcelos… Aí já tinha escola de samba, e o forte da nossa escola era o ritmo do Sopapo. Se eu soubesse que hoje nós íamos ter essas histórias todas, eu tinha gravado mais coisas na minha cabeça, por quê? Porque a gente sente muita falta hoje do que tinham nossas baterias de bom. O que tinha era aquele “Durugundum”… Vocês já viram o Mestre Baptista tocar, o que o Sopapo faz… E a pessoa que tocava Sopapo fazia a batida na escola de samba, que hoje não tem mais. Podia ter outras mais, mas era essa batida, o “Durugundum”, que levava a escola de samba. Só que cada escola de samba tinha uma, ou alguém especializado, e cada um tinha um estilo. Por exemplo, na Teles tinha o Cacaio, que ele tocava Sopapo e depois, com a evolução, ele veio a ser ensaiador. Na Academia tinha o Boto, para mim o tocador de Sopapo que mais dava aquele “Durugundum”… Porque o Sopapo… Nenhum instrumento faz esse retorno, e eu não sei explicar. O Boto tinha uma mania que era muito interessante. Ele tinha a mania de tocar de costas na escola. Se a escola vinha vindo para cá, ele vinha de costas olhando por cima do ombro. Ele era grandão, sabe? E vinha com a mão assim… “Durugundum”! Já na minha escola, a Osório, eu não me lembro… Quem tocava o Sopapo na Osório era o Paulo, mas o Paulo já tocava meio diferente.

GT: E quantos que tinham? Quantos tocavam Sopapo em uma bateria?

Dona Sirley: Olha, eu acho que Sopapo era um por bateria, porque tinham os surdos. Hoje, o surdo é levado até em umas rodinhas e naquele tempo não. O surdo foi crescendo de tamanho. E o surdo era uma batida só, a pessoa que vinha perto do surdo não ficava muito perto, porque tinha uma bolota grande que fazia assim, aquela batida: “Pumbu! Pumbu!”. E o Sopapo: “Durugundum!”. E tinha outra batida que fazia “Pumbubu!”, que aí eu não sei, pois tem o surdo de primeira e de segunda… É como chama, né? O primeiro é o que faz “Pum! Pum!”. E o outro faz “Pumbu! Pumbu!”. E, agora, juntando as três coisas… O pandeiro, hoje, acho que as escolas tem pandeiro, mas naquela época tinha pandeiro, tinha frigideira… Coisas que eu não sei se as escolas ainda trazem. Uma coisa que fazia muito sucesso nas escolas de samba era a frigideira e o reco-reco. O reco-reco artesanal… Eles pegavam um ferro lá na fundição e faziam várias cavas e passavam uma baqueta e fazia “Traque! Traque!” no ritmo…

GT: E, Dona Sirley, para nós falarmos um pouquinho mais do Tambor de Sopapo, puxando pela sua memória, nesses carnavais de rua, nos bailes, o Sopapo estava presente? Tu te recordas alguma coisa disso?

Dona Sirley: Não. Em baile não, porque nós tínhamos para tocar em baile uma coisa muito linda, que foge um pouco do Sopapo. Nós tivemos muito aqui em Pelotas – e eu não sei em outras cidades -, nós tivemos muitas bandas de jazz. Nós chamamos de “jás”… E tinha o “Jás” Estrela… Em inglês se pronuncia “diés”, né? Nós chamávamos de “jás”. Dentro do salão, dificilmente uma bateria de escola de samba… Eu não me lembro assim de entrar. Eles visitavam os clubes, sim, mas ficavam na frente.

GT: O Giba Giba nos menciona – já falou conosco outras vezes, e o próprio Mestre Baptista – que, na rua mesmo, nesses blocos, ou em determinados lugares, estava lá o Sopapo…
Dona Sirley: Sim, a gente chegou a ter definições das escolas de samba de saber de longe qual era pela batida do Sopapo. Naquele tempo, as escolas saíam armadas da sede. Ainda esses dias uma amiga minha que está vendo que as escolas não saem armadas, e ela não é muito carnavalesca, me perguntou se a minha escola ia na muamba, que é longe do Centro. E ela falou: “A Estação vai vir sambando já?”. Imagina! Ela é ainda do tempo…

GT: Saía do barracão já sambando?

Dona Sirley: É. A Teles ainda hoje está situada ali perto do campo do Brasil de Pelotas. Mas ela era lá na Dom Pedro II, perto da Universidade Católica. Da universidade até duas quadras foi onde a Teles começou e viveu muito tempo, e, para vocês terem ideia, as escolas saíam prontas do lugar. As rainhas saíam sambando pro Centro e, às vezes, até voltavam sambando. Eu cansei de sair da Osório… A Beneficência Portuguesa, vocês sabem onde é? Tá. A Osório, indo daqui para lá, ela fica uma quadra antes da Beneficência. Eu tô falando com vocês e parece que eu estou me vendo saindo sambando da Osório, dobrar na Floriano e para depois entrar ali nas ruas de carnaval. A Academia era do Fica Aí. O Fica Aí era aqui na Félix da Cunha, imediações entre a Catedral e onde eu nasci e me criei. Então, a Academia saía dali pronta. Só que depois o Fica Aí se mudou lá para a Deodoro, e a Academia é uma escola de samba antiga, é uma das escolas de samba que eu nunca assimilei muito… O Fica Aí foi o clube que teve a época da discriminação com o negro, e a Academia surgiu dentro da Fica Aí. Então, as pessoas frequentadoras do Fica Aí tinham uma empáfia muito grande. Eles começaram a se distanciar dos outros negros mais pobres pelas condições que tinham. Foi no auge dos alfaiates negros em Pelotas. Aquelas famílias, esposas e filhas dos alfaiates que dominaram. Teve também a época dos cozinheiros negros, doceiros. Eu vou explicar porque houve essa fase de profissionais negros em Pelotas. Esses profissionais negros foram grandes alfaiates aqui em Pelotas e então eles ganhavam muito bem, e as pessoas que frequentavam o Fica Aí se vestiam melhor, tinham mais condições. Hoje eu falo para o presidente do Fica Aí – e é interessante, porque hoje eu sou “Ficaizense” -, o Dr. Raul, que é o presidente atual, que eu sofri discriminação aqui. Quando eu estudei no Colégio Pedro Osório – e naquela época também não existia tantas escolas como agora… E no Colégio Pedro Osório, que ficava ali no casarão grande, na Av. Osório, perto de onde eu nasci e me criei, ele pegava crianças de grandes pontos da cidade, porque não eram muitas escolas, e nós éramos muitas meninas negras na escola. Quando eu entrei no primário, eu tinha 13 anos. A quinta série, todas aquelas meninas negras que viviam juntas ali no Pedro Osório, aquelas que as famílias já estavam bem, que já não quiseram que não ficassem sem estudar para não serem domésticas, elas foram para o Assis Brasil, que era uma escola fundamental que preparava os alunos para serem professores. Essas meninas, quando passaram para o Assis Brasil, elas passaram a já não cumprimentar a mim, e eu sofri isso…

GT: Queres dizer que havia discriminação com as próprias amigas negras?

Dona Sirley: Com as próprias amigas. Elas foram estudar e, já sabendo que seriam professoras… É aquele tal racismo que o negro tem com o próprio negro, que ele cresce e acha que, se ele vai se dar com um negro mais pobre, eu não sei o que acontece… E por que eu sou Chuva? Porque eram três clubes negros: Depois da Chuva, Chove Não Molha e o Fica Aí. O Chove até não era tão discriminador. Eu frequentei até uma certa idade o Chuva, só que depois o Chuva começou a ter problemas com a presidência, começou a ficar meio decadente. O Chove estava forte, ele não tinha muito essas… E a gente debandou muito do Chuva para o Chove. Eu nunca consegui oportunidade de ser “Ficaizense”. As pessoas tinham muita mania de olhar as festas… As Festas da Primavera… A do Fica Aí, com aquelas negras muito bonitas, e eu tinha vontade de estar ali, mas eu nunca fui olhar uma festa do Fica Aí. Tinham pessoas negras, até de menos posses, que iam olhar. E eu nunca quis ir olhar, e era perto da minha casa. Bom, da minha infância e juventude, eram esses.

GT: Dona Sirley, a gente não pode fugir da história, e eu preciso falar sobre a sua homenagem agora na sexta-feira de carnaval, como é que foi isso junto do Mestre Baptista?

Dona Sirley: Bom, essa homenagem foi muito interessante. Eu estava falando para vocês que eu era da Escola de Samba General Osório, que durou cinco anos. Tem coisas que não são de muita persistência… As pessoas mais velhas vão saindo, e os novos parecem que têm preguiça de levar a coisa, e a General Osório acabou. Nisso, algumas pessoas fundaram a Ramiro Barcelos. A Ramiro Barcelos é uma escola que tem sede própria, mas a gente sempre que pode ajudar a Ramiro a gente aceita, vai e ajuda, porque é uma escola de raiz bem negra, que foi fundada por aquelas pessoas que eram da Osório. A Ramiro e a Teles, quando surgiram, foram escolas de negros. Elas custaram muito a ter brancos nas escolas e aquela coisa toda.

GT: E o Sopapo presente?

Dona Sirley: A Ramiro chegou a ter muitos Sopapos. Eu não me lembrava do Zé Patão… Eu vi muito na Teles, mas depois, quando a Estação surgiu e ele não era morador aqui do Areal, eu já vejo ele tocando várias vezes na Estação. Eu acho que o Sopapo não saiu de um todo, porque ele toca esse Sopapo, mas eu não encontrei mais com ele. Mas falando da homenagem, a Ramiro é essa escola de raiz, ela tem um conselho, e eu não sei se todas as escolas têm esse conselho, e tudo tem de passar pelo conselho. Essas pessoas são bem idosas e são bem antigas. Então, elas têm divergências entre elas, então, já vem há um bom tempo a escola parada, não tendo um bom crescimento, porque essas pessoas não se unem… E aquele que vai para escola e consegue fazer alguma coisa bota a escola na rua. Os que não fazem ficam malhando o outro. É uma coisa mais ou menos assim que acontece. Tem pessoas que são ramirenses de coração, e me parece que tudo surgiu de um rapaz chamado Ignácio, que o pai dele foi um grande ramirense, que era sobrinho da Maria Amaro, mãe do Daniel Amaro, e no ano passado ela estava… Ela tinha um presidente que não estava muito bem, ele não tinha apoio e entregou a presidência, como já estava no meio do ano e já se tinha alguma coisa, a Dedé… A Dedé é um braço forte da Ramiro. Ela estava trabalhando com este Seu João, que soltou a presidência, e como ela tinha algumas coisas ela se juntou com mais um grupo de mulheres e colocou a Ramiro na rua no ano passado. Foi com muito sacrifício. Faltou um montão de coisas, se perdeu um monte. Aí, em março, elas entregaram o cargo. E, para esse cargo, tinha de fazer uma chapa, mas não apareceu ninguém para assumir. E aí o Michel, que é este menino que está na presidência, tem vinte e dois anos, e o pessoal diz que ele entregou a cara a tapa, ele resolveu assumir a Ramiro com a mãe dele. Essa família… Eles são ramirenses. Ele é neto de ramirense. Eu não sei por onde isso começou… Então, esse Ignácio, que é sobrinho da Maria Amaro, que eu não sei como conheceu o Seu Estevão, que é pai da Ester, que a Ester estudou com a Daiane, são formadas em História, e aí eu não sei como chegou até a Nara Louro, que é uma professora da Federal, que é professora de História, e ela já tem feito carnaval em outras escolas de samba. Ela tem casa de batuque, ela é historiadora da África. De onde surgiu a ideia primeira, eu não sei. Primeiro parece que ela fez o enredo. E foi assim que a Daiane me colocou. E aí o Estevão foi procurado pelo Ignácio e formaram este trio para fazer a letra do samba. Quem participou da letra e fez a melodia foi, em Esteio, um rapaz chamado Negro Dê, que é da Leopoldinense. Ele é negro, gordinho… Ele é ajudante de bateria lá. Então, os construtores do samba são estas pessoas: o Estevão, o Negro Dê, a Daiane e a Ester. Em outubro eu fui procurada, e as coisas vão se encaixando. Em uma entrevista que eu dei depois de uma viagem, o Estevão ouviu e ele ligou para a rádio, eu escutei ele falando: “Eu gostei tanto de escutar esta senhora falar, que coisa boa este projeto da Ação Griô, eu não sei bem o que é Griô, mas minha filha, que é professora de História, eu vou falar para ela e acho que ela vai gostar de saber disto aí”. Eu lembrei agora que nisto teve uma festa no Fica Aí, o lançamento de um CD, e eles vieram para essa festa e fomos apresentados. A Ester veio falar comigo e… Sabe aquelas coisas que vão rolando assim? Aí eles me comunicaram e me consultaram se eu permitia que o samba, que tem o refrão: “Grande festa no terreiro/Maria Amaro mandou avisar/Dona Sirley suas histórias vai contar/Mestre Baptista o Sopapo a fabricar”…

GT: E como é que foi que eles chegaram no Baptista?

Dona Sirley: Chegaram pelo seguinte. E é isso que eu tô dizendo… Uma coisa se encaixa na outra. Eu deduzi assim: ele escutou falar dos Griôs e nessa festa que falei a menina veio até minha mesa, a Ester, que é uma das compositoras, e disse: “A senhora que é a Dona Sirley? Meu pai falou muito da senhora para mim, dos Griôs, e eu sou professora de História, me formei…”. Aí eu marquei um encontro com ela em um bar e eu não conhecia bem ela. Ela vem muito a Pelotas. Nos encontramos no bar, e eu levei muitas fotos, o livro do Griô, e contei como foi que eu fui convidada e o que eu fazia como Griô, o que eu vi nas viagens e o que o livro mostrava também. É aquela coisa, eu não sei bem quem deu o primeiro passo, mas foi daí. É o que aconteceu. Quando eles quiseram fazer um samba falando de Griôs, sabendo que a gente estava no projeto… Acho eu que é por isso que eles chegaram até nós, a mim e ao Mestre Baptista. A Maria Amaro, que não está no projeto, mas ela é considerada uma Griô, porque ela tem uma casa de religião… Então, por bem, eles acharam que essas três pessoas iam representar bem os Griôs. E aí eles prestaram essa homenagem. Eu, no caso, acho que, quando eles viram que eu estava nessa Ação Griô, eles acharam por bem me homenagear, porque eu não sou… Eu sou uma carnavalesca assim… As pessoas que me conhecem sabem que eu venho no carnaval desde a infância. Eu não saí ainda do carnaval.

GT: Sim, sim…

Dona Sirley: E falando da Osório, quando a Osório terminou e a Ramiro surgiu, eu não fui ser Ramiro, mas eu já saí duas vezes na Ramiro no decorrer da vida, em alguns anos que a Estação não saiu. E, nesse meio tempo de Osório, eu passei dois anos… Eu fui morar em Porto Alegre com uma tia. Não era bem morar, eu fui visitar ela… Eu já falei para vocês dos Caetés? Quando começaram a tirar as pessoas de Canguçu para trabalhar em lugares diferentes, a minha mãe veio para Pelotas, e esta irmã dela, de criação, quando vieram a se reencontrar, eu já era jovem. E, quando eu fui visitar estas primas, elas pertenciam às tribos Caetés, Iracema, que era na Getúlio Vargas. Eu achei aquilo tudo muito interessante. Elas me convidaram para eu sair e, daí, eu não saí na Osório. No ano seguinte, a Diva veio passar o carnaval aqui em Pelotas e trouxe aquela fantasia de índia. Eu tinha a minha, então, nós saímos na Osório de índia e foi um sucesso tremendo, pois era um tipo de fantasia que não tinha aqui. Foi muito interessante.

MC: A senhora falou da Maria Amaro e da religião e não chegou a dizer se teve alguma entrada e se professa esta religião e, mais, se tem alguma relação do Sopapo com isso, se há, se houve?

Dona Sirley: Olha, o Sopapo na religião não. É o seguinte, eu tenho uma trajetória na religião bem misturada. Não por vontade, porque é a vida. A primeira religião que eu fui frequentar foi a Católica, porque esta família que minha mãe trabalhava era e, embora meu pai alugava uma casa e a gente ficava independente, eles ficaram trabalhando sempre muito tempo nessa casa. Família rica da sociedade, e eu fiz todos os mandamentos da igreja, batizado e tal. Meus pais, aos poucos, começaram a se emancipar. Meu pai gostava muito de um centro espírita que tem de frente à catedral. E então, em família, a gente ia no centro espírita kardecista, e eu me lembro que frequentei o centro muito tempo. Nesse meio tempo, a minha mãe era muito de novidades de religião, surgiu uma amiga que convidou ela para um centro de caboclos de mesa, que teve muitos anos aqui em Pelotas. Era guarani e típico kardecista, só que baixavam caboclos, índios… E eu fui batizada nesse centro. Já lá nos meus onze anos surgiu uma outra amiga contando para minha mãe que ela tinha conhecido um centro de umbanda – e foi aí que eu conheci a umbanda. Eu adorei conhecer a umbanda, porque é uma coisa meio parecida com o carnaval, por causa dos pontos, só que não tinha tambor. Esta umbanda que eu conheci era umbanda de linhas brancas, que chamam que é aquela só para caridades, não tem toque, só trabalham para o bem, para aconselhamentos. E aí, dos onze anos aos vinte, a gente só ficou frequentando essa religião. Mas não tinha tambor. Pode ser que em outra tenha, mas a gente tem que contar a vivência da gente. Esse centro era muito bom, e a Dona Erotide começou a ficar velinha, começou a ensinar outras pessoas, só que, nesse meio tempo, vinte, vinte e poucos anos, eu fui para Porto Alegre. Em Porto Alegre eu ia com a minha tia em um centro no bairro Partenon, lindíssimo, que tinha tambor. Aí, eu voltei para Pelotas depois de quatro anos.

SV: Atabaque? Ou era Sopapo?

Dona Sirley: Atabaque, eu, Sopapo, nas minhas religiões, eu não vi.

GT: Sopapo tu só viste no carnaval?

Dona Sirley: Só no carnaval. E digo para vocês que é o mesmo que bolo. Dou uma receita de bolo para vocês três. O bolo de cada um não vai sair igual. Então, tem aquela coisa da Teles… Como as escolas vinham tocando da sua sede para o Centro, se a gente estava no centro da cidade, nós sabíamos quem era a Teles, quem era a Osório ou quem era a Academia, porque cada uma era diferente, usava o Sopapo de maneira diferente.

Este compilado de depoimentos foi coletado ao longo das filmagens do filme O Grande Tambor (Coletivo Catarse – 2010) e transformado num livro distribuído a época do lançamento do filme.

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